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Salmo 50 - O Culto Verdadeiro e o Culto Inútil
THURSDAY, DECEMBER 06, 2018
Posted by: Igreja Batista Redenção | more..
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Na cidade de Evanston, Illinois (Estados Unidos), certa vez se viu um anúncio, no mínimo, curioso. Ele dizia: “Nós queremos que você se junte à nossa fé como um ministro ordenado com o grau de doutor em divindades”. No anúncio, eles explicavam se tratar de uma denominação de rápido crescimento, que estava à procura de novos membros que acreditavam, como eles, que todo homem deveria procurar a verdade da sua própria maneira, por quaisquer meios que considerem corretos. Como vantagens oferecidas para o cargo de ministro ordenado, o anúncio afirmava que os portadores do título poderiam iniciar suas próprias igrejas e obter isenção de impostos; poderiam realizar casamentos e ter todas as prerrogativas eclesiásticas. Além do mais, dizia o texto, se os candidatos desejassem ser missionários daquela denominação, obteriam grandes lucros, além de confortos como transportes, hotéis e presença em teatros. Tudo isso pela “bagatela” de cem dólares pelo curso que, segundo se afirmava, era válido e reconhecido em qualquer lugar dos Estados Unidos.

Infelizmente, esse tipo de anúncio não é exclusividade do Estado americano de Illinois. Eu mesmo já vi algo parecido no Brasil. Nesses casos, a ousadia de afirmar que o curso confere o grau de doutor em divindades demonstra, logo de cara, o caráter enganoso da proposta. Eu conheço algumas pessoas que têm o grau de doutorado em Teologia e posso afirmar que não o obtiveram por meio de um cursinho de cem dólares, mas passando décadas das suas vidas em seminários e bibliotecas e, também, debruçados sobre suas escrivaninhas, lendo e escrevendo milhares de páginas por ano. Posso também dizer, conhecendo verdadeiros doutores, que é muito fácil distingui-los dos falsos. Esse falso curso de doutorado, em Evanston, não consegue resistir a uma breve conversa entre seus “falsos doutores” e os verdadeiros estudantes das Escrituras que possuem, de fato, o referido grau de ensino.

O Salmo 50, de autoria de Asafe, também traça uma nítida distinção entre o “verdadeiro” e o “falso”. Nesse caso, o objeto de avaliação não é um título educacional, mas o coração das pessoas que se dizem adoradores de Deus. O próprio Senhor é quem, no salmo, os distingue e se manifesta diante da falsidade dos seguidores nominais. O salmo parece ter sido escrito em um contexto da manutenção de uma religião ritualista, por parte de alguns, que consideravam a forma externa do culto como tudo que importava oferecer a Deus. Não há como negar que, guardadas as devidas proporções, é uma situação que nos lembra o ritualismo seco e morto dos dias do profeta Malaquias: sacrifícios oferecidos diante de Deus por corações distantes, tanto quanto possível, do Senhor digno de todo louvor.

Nesse sentido, os vv.1-6 tratam de uma convocação geral de Israel (v.1) a fim de comparecer diante do tribunal de Deus. O tom sério e grave com que tal convocação é feita é de “arrepiar” e fazer temer – e tremer. Diz o v.3: “Vem o nosso Deus e não se cala; diante dele há um fogo que consome e, ao seu redor, se abate uma enorme tempestade” (yabo’ ’elohênû we’al-yeherash ’esh-lepanayw to’kel ûsevîvayw nis‘arâ me’od). Tanto pela figura do fogo como pela da água, a ideia é de uma inevitável destruição para aqueles que forem apanhados por Deus. O motivo de Deus fazer a convocação é (v.4) “para julgar o seu povo” (ladîn ‘ammô). Quanto ao juiz da questão (v.6), “Deus é aquele que julga” (’elohîm shofet hû’).

Como que em uma grande assembleia, o Senhor se pronuncia contrário àqueles que o desagradam (v.7): “Eu testemunharei contra ti” (’a‘îdâ bak). Nessa ação, antes que haja qualquer mal-entendido, Deus já avisa os réus que o motivo do seu juízo não se devia à natureza, em si, dos sacrifícios que lhe ofereciam no Templo (v.8): “Eu não te reprovo devido aos teus sacrifícios e aos teus holocaustos” (lo’ ‘al-zevaheyka ’ôkîheka we‘ôloteyka). Apesar disso, o Senhor decreta (v.9): “Não aceitarei bezerro da tua casa, nem bodes do teu cercado” (lo’-’eqqah mibbêteka par mimmikle’oteyka attûdîm). A pergunta natural é: se o problema não era o sacrifício em si, tanto nas disposições técnicas como na qualidade dos animais, qual, então, era o motivo da repreensão?

Depois de o Senhor dizer que não precisa dos sacrifícios oferecidos a ele, no sentido de não ter necessidades que possam ser supridas por ofertas (vv.10-13), ele, então, toca no ponto sensível da questão: a motivação dos ofertantes. Eles participavam dos rituais ditados pelo Senhor, mas seu coração não acolhia nem seus ensinos, nem tampouco o amor por aquele a quem sacrificavam. A triste situação de uma religião apenas nominal e ritualista é exposta nos vv.16,17: “Mas Deus disse ao ímpio: que vantagem tens em repetir os meus preceitos e em carregar a minha aliança na tua boca, quando tu odeias o ensino e lanças fora as minhas palavras?” (welarasha‘ ’amar ’elohîm mah-leka lesaffer huqqay watissa’ berîtî ‘alê-pîka we’attâ sane’ta mûsar watashlek devaray ’ahareyka). Deus, que viu tais defeitos no coração dos ímpios, deu-lhes prova, também, do conhecimento a respeito dos efeitos externos da sua desobediência e da sua insubmissão. Deus lhes acusa de aprovar a desonestidade e a imoralidade (v.18), de serem maldosos e trapaceiros (v.19), de trair seus próprios irmãos (v.20) e de menosprezar a santidade do Senhor (v.21). Eis os motivos pelos quais Deus rejeitou os ímpios e os sacrifícios deles, a exemplo de Caim. Quando o Senhor rejeitou a oferta de Caim, não foi pelo seu conteúdo, mas devido à maldade do ofertante. Por isso, disse a Caim: “Se procederes bem, não é certo que serás aceito?” (Gn 4.7a) – há quem diga que a oferta de Abel foi aceita por ser “oferta de sangue”, mas a Bíblia não dá subsídios para tal visão extemporânea e confere à fé de Abel o motivo pelo qual ele e sua oferta foram aceitos (Hb 11.4).

Assim como Deus instruiu Caim sobre o modo de ser aceito, fez o mesmo aos ímpios a quem se dirige, no Salmo 50, em tom reprobatório. Fazendo isso, aponta três traços do culto verdadeiro. O primeiro deles é um coração genuíno. A primeira parte do v.14 diz: “Ofereça sacrifícios de gratidão a Deus” (zevah le’lohîm tôdâ). Apesar de os servos nominais do Senhor, pelo que diz o próprio texto, apresentarem a Deus suas ofertas – aquelas que Deus passou a recusar no v.9 –, Deus orienta o modo como deveriam ocorrer: com gratidão. Parece redundante: “Sacrifícios de gratidão com gratidão”. Entretanto, o que Deus quer ressaltar, por meio do salmista, é que a oferta exterior deve corresponder à devoção interior. Nesse aspecto, a oferta deve vir de um coração genuíno e, assim, fazer sentido e ser verdadeira. E isso vale para todas as áreas pelas quais os cultos são prestados ao Senhor.

O segundo traço é a fidelidade a Deus. A sequência do v.14 diz: “E mantenha os seus votos para com o Altíssimo” (weshallem le‘elyôn nedareyka). O texto não explica que votos são esses, mas, quaisquer que fossem, com fidelidade deveriam ser cumpridos. Independente de haver votos pessoais e pontuais, cada geração de israelitas renovava com Deus a aliança mosaica. Ela tinha um caráter bilateral. Diferente de outras alianças, tanto Deus como os homens se comprometiam com especificações de deveres e direitos. Do seu lado, Deus sempre foi fiel. Da parte dos servos, a ordem é que ajam do mesmo modo.

Finalmente, o terceiro traço é a submissão dependente. Diferente dos homens que desprezavam as palavras do Senhor (v.17) e, na verdade, o próprio Senhor (v.21), o servo verdadeiro conhece sua posição e a posição de Deus. Sabendo disso e obedecendo as orientações divinas, o v.15 revela um dever do servo. Diz-lhe o Senhor: “E clame a mim no dia do perigo” (ûqera’enî beyôm tsarâ). A dependência demonstrada nessa atitude revela a submissão do servo ao Senhor por saber que somente Deus tem poder para cuidar do homem que lhe pertence. E quando isso acontece, a atitude do verdadeiro servo é assim descrita por Deus: “Você me honrará” ou “você me glorificará” (tekavvedenî).

Tal é a distinção entre o servo verdadeiro e o servo falso; e a distinção entre o culto verdadeiro e o culto falso; entre aquilo que Deus aceita e aquilo que ele rejeita. Não há espaços para demonstrações vazias e ritualismos que não refletem a adoração viva vinda do íntimo dos adoradores. Não quando Deus conhece tudo, incluindo o coração das pessoas. Nem tampouco, quando se sabe que ele não se comove com as aparências. Com isso em mente, inevitavelmente temos de trabalhar os nossos corações para nos arrepender de pecados, para dedicarmos nosso tempo e nossos esforços a Deus e para sermos autênticos quando declararmos nossa adoração ao nosso criador e salvador. Caso contrário, ofereceremos a Deus um culto tão inútil quanto diplomas de cem dólares que trazem, risivelmente, o título de “doutor em divindades”.

Pr. Thomas Tronco

Category:  Reflexões diárias

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